sábado, julho 05, 2008

Passeio dos sentidos

Passeio dos sentidos, assim se chamou a iniciativa realizada hoje em Alfama. Consistia em andar por Alfama de olhos vendados com o intuito de nos aproximarmos do dia a dia de um invisual.

Na verdade anda-se na rua, com o stress do dia a dia e não se pára para pensar nas outras pessoas, tão diferentes mas, no fundo, tão iguais.

Ao fechar os olhos vê-se uma nuvem cinzenta que se vai transformando num enorme vazio preto. A tendência é para os abrir mas não, tem que conseguir mantê-los fechados.

Sentem-se todos os sentidos a começar a trabalhar. Sente-se medo, um isolamento terrível. Pensa-se que não se consegue viver assim. Mas e se tiver algum dia que o fazer?

Todos os outros sentidos vão melhorando lentamente. Sente-se o coração bater. Dá-se um passo e outro de seguida. Tem-se medo de cair.

Imagina-se o que nos rodeia, mas não passa disso mesmo, imaginação. Ouve-se os sons á volta, associam-se ao que se conhece. Mas será mesmo isso que ali está?

Passeia-se pela cidade, no metro em Lisboa por exemplo, vê-se Braille nas placas e saliências no chão ao início e fundo das escadas e perto do fim da gare.

Num dia normal, nem sequer se repara no que ali está. "Hoje" fecha-se os olhos e toca-se. Sente-se o Braille nos dedos. Na verdade, para nós não diz nada, é uma sensação algo estranha.

Dá-se a aproximação às escadas ainda de olhos fechados. Sente-se as saliências e sabe-se que se iniciam as escadas. Sente-se o primeiro degrau e abre-se os olhos. O medo de cair é inexplicável.

Após um dia assim pensa-se no verdadeiro sentido que a vida tem, e na importância que têm todos os segundos, todos os sentidos e até todas as pessoas com quem nos cruzamos e não ligamos.

Porque elas por fora são muito diferentes de nós, mas por dentro são verdadeiros seres humanos e, muitos deles, enormes lutadores desta vida para alcançarem momentos que, mesmo que para nós pareçam algo simples, são de verdadeira glória.


Pessoa, A.

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